QUINTA DA FIRMIDÃO

 

INTRODUÇÃO

Da história da região

É intemporal a ocupação humana nesta região, mas é da época da ocupação romana que nos chega a maior parte da informação escrita mais antiga.

Situada a escassas centenas de metros da atual Óbidos, situava-se a importante cidade de Eburobrittium.

Eburobrittium recebia benefícios jurídicos e fiscais, era composto por um centro monumental, apresentando um fórum de proporções vitruvianas composto por tabernae, basílica e pátio porticado e termas públicas, constituídas por um praefurnium e compartimentos do caldarium. Em seu redor, encontram-se alguns edifícios de caráter doméstico ou e outros de uso ainda indeterminado, presume-se para armazenamento de cereais, vinho, sal e azeite.

Eburobrittium foi a capital de uma civitas cujo território provavelmente começava na foz da antiga lagoa da Pederneira, junto à Nazaré, seguia o curso dos rios Alcoa e da Fonte Santa, passava pela linha de cumeada das serras de Candeeiros e de Montejunto e acompanhava o curso da ribeira de Alcabrichel até desaguar no Atlântico, em Maceira, constituindo-se como um dos três grandes complexos portuários do território da Estremadura.

Esta localização privilegiada no eixo Conímbriga, Olissipo, tornou-a num importante centro de câmbio comercial, de produtos agrícolas e piscícolas da região, bem como num centro de produção de industrias transformadoras associadas a estas atividades.

Com o processo da reconquista cristã na península Ibérica, principalmente a partir do século XI, o litoral estremenho foi tomado pela primeira vez aos Muçulmanos pelo Rei Afonso VI de Leão, que em 1091 atingiu a linha do Tejo.

Mas, a tomada definitiva dos castelos da Estremadura, por D. Afonso Henriques ocorreu entre 1148 e 1156. Para trás ficava um longo período de instabilidade e insegurança, em que se alternavam períodos de relativa acalmia com outros de luta mais ou menos acesa entre Cristãos e Muçulmanos.

Do Termo

A denominação de “QUINTA” foi normalmente associada a propriedades com extensões únicas de terra, de área variável mas relativamente grandes.

As suas origens devem-se, entre outras e habitualmente, a concessões e doações senhoriais em reconhecimento de feitos de ordem militar ou administrativa, que os seus novos proprietários terão dinamizado construindo casarios, palácios ou palacetes.

As mais antigas, possuem brasões de família  símbolos de nobreza de origem rural, cujos proprietários vindouros procuravam o reconhecimento do seu estatuto junto da Corte e obter lugares no aparelho estatal.

Daí que, estas quintas que aqui nos referimos, remontam  todas aos tempos anteriores ao século XX,nos tempos da monarquia.

Nos tempos que correm, esse conceito foi relativamente alterado, e habituamo-nos a ver pequenas parcelas muradas, com casa de habitação, com  essa denominação.

Da história

Na história  que nos cumpre,  a fundação da nossa QUINTA é recente, pois só aconteceu no ano de 2000, embora as suas origens remontem ao Século XIX.

Teve origem com o patriarca de numa família de agricultores, com uma casa rural, que ao longo dos tempos foi crescendo, tendo atingido uma dimensão considerável na geração seguinte, recorrendo a mão de obra exterior, chamados “malteses”, embora reunissem no seu seio algumas pessoas, que se ocupavam de trabalhos inerentes à labuta diária da casa e bem como do campo, eram reconhecidos como criados.

                                                         

  Adriano Carvalho                                                                   Jerónimo Carvalho

                                             

                  Transporte do Vinho                                                              Lavrador com traje de trabalho

Eram tempos em que a lavoura das terras era feita manualmente com enxadas e arados puxados por bois.

Os matos, florestas e charnecas dominavam os terrenos e a paisagem.

A cultura da vinha exigia os maiores e frequentes cuidadosao longo do ano, desde a poda até á vindima, sendo que todas as operações obrigavam a intervenções manuais.

Após a desmatação do terreno, antes da plantação, o terreno teria de ser alqueivado, operação realizada com enxadas próprias para o efeito, caracterizadas pelos dois gumes ou pontas separados com cerca de 40 cm de comprimento.

O alqueive afundava dois golpes de enxada, isto é, o terreno era mobilizado a cerca de 80 cm de profundidade, obrigando por vezes a que houvesse um homem com uma alavanca para facilitar a remoção da ferramenta.

Hoje, esta operação é realizada com bulldozers e charruas de ferro que atingem profundidades de cerca de 1 m.

Aqui, não nos podemos, como descendentes, de coibir de mencionarum facto de que muito nos orgulhamos e nos honra, uma vez que é digno de referência e louvor, trata-se de o nosso antepassado, o patriarca atrás referido, á época, já proprietário de terrenos, trabalhava também como assalariado numa quinta da região e apesar dessa ocupação a que se obrigava, determinou-se a alqueivar sozinho e fora de horas uma das parcelas que possuía com cerca de 1 Há a fim delá  plantar uma vinha.

Após esta mobilização o terreno era gradado, com recurso a juntas de bois e alfaia correspondente, e semeado de trigo, aveia, algumas leguminosas, conforme se entendesse como oportuno para o ano que corria.

No ano seguinte, procedia-se à plantação dos bacelos. Ou seja, a planta porta enxerto“bravo”, para enraizar durante um ano, a fim de no ano seguinte se realizar a enxertia.

A enxertia, operação em que só alguns tinham o saber de a realizar, consistia em escavar em volta o bacelo já em pleno ciclo vegetativo, cortar-lhe a rama, e introduzir dentro de uma ranhura, que lhe era feita com um golpe de navalha apropriada, um segmento de vide “mansa”, isto é, já produtora, que se recolhia de outras vinhasconforme a casta que se pretendia. Após o que, havia de se atar com junco essa união e tapar com a terra removida o buraco em volta, de forma que a intervenção não ficasse exposta ao ar.

Outro dos afazeres, a poda, era realizada com tesouras e podões próprios para o efeito, em que eram cortados os ramos da videira mais fracos ou mal posicionados, deixando-se uma ou duas “varas” (ramos principais para produzir), e, ou alguns “talões”(2 ou 3 segmentos de uma vide). 

Seguia-se a empa, que consistia em fazer uma argola com as varas, que era atada ao corpo da cepa ( tronco da videira), onde era acoplada uma cana previamente colhida dos canaviais para o efeito, espetada na terra na vertical, de forma a sustentar e estabilizar a videira e as uvas que viessem a produzir.

Havia também, que cavar, retirar os rebentos que provinham dos bacelos, chamados“bravos”, escavaçar (desfazer as levas que a cava originava) e cortar as raízes que se formavam provenientes da cepa, chamados“mansos”.

As vindimas, pelo período limitadoem que tinham de ser realizadas, a fim de obter as melhores condições fitossanitárias, e evitar as primeiras chuvas de Outono, obrigavam a contratar ranchos de pessoas, mulheres e homens, e ainda uma ou duas juntas de bois conduzidas pelos respectivos abegões, que levavam a cabo a colheita e o transporte, respectivamente, das uvas para o lagar.

Aí, onde operavam um ou dois lagareiros, as uvas eram descarregadas das tinas para a lagariça (divisão do lagar), onde previamente era escorrido o mosto inicial, e pisadas as uvas, procedendo-se posteriormente à sua transferência para o lagar de uma forma ritmada para que se formasse o “pé” de uvas, por debaixo da prensa, que o iria espremer durante a noite.  

De madrugada, esse “pé” era desfeito, o “engaço” removido, deixando o lagar pronto para nova remessa.

Era um trabalho penoso e duro. Ainda assim, presos de sol a sol, estas gentes ofereciam-se a cantos e suores.

Os nossos avós, de uma linhagem humilde, foram superiores a todo o tipo de cansaços e inclemências, não se lamentando das contrariedades, souberam tirar partido das circunstâncias desfavoráveis.

Iguais a si próprios, nem modestos nem altivos, foram alcançando os objectivos a que se propunham. Pela humildade da sua origem e prestigio do trabalho conseguiram não ser inferiores ou superiores a ninguém.

Gerada e criada a prole, quatro filhos e quatro  filhas, todos vieram a formar as suas próprias famílias.

Importa, para a nossa história, o mais novo desses filhos, que concretamente foi o detentor da primeira parcela da área que hoje constitui a Quinta da Firmidão – Alberto Gomes de Carvalho.

Este, também não levou uma vida fácil. A começar pelas contrariedades que sofreu ao pretender casar com a filha de um abastado proprietário da região, que era de uma beleza invulgar e bastante prendada e por quem se apaixonara, sendo de igual modo retribuído, quais Romeu e Julieta.

Alberto e Emília Carvalho

Voluntarioso e determinado, quando chegou à conclusão de que tal união não iria ser possível pelas vias normais, não demorou a convencer a sua amada a fugir com ele, libertando-se desse modo da tutela de seu pai.  

Não é de admirar, que tal atitude,criou um enorme conflito entre famílias, que só mais tarde, quatro anos depois, com o nascimento do único filho, foi debelado, embora nunca tivesse sido esquecido.

O então patriarca da sua própria família, desenvolveu e mecanizou a sua agricultura, reestruturou vinhas, plantou pomares, dinamizou o comércio das suas produções e sendo um homem bastante respeitado e considerado, ocupou lugares de relevo tanto na Administração Pública como em Instituições particulares.

Apesar dos embaraços e dificuldades iniciais, conseguiram progredir e viveram felizes até ao fim dos seus dias.

Progenitores do actual proprietário das terras constituem a agora chamada Quinta da Firmidão – Jorge Alberto Vinagre Gomes de Carvalho -agora sucessor de três gerações de vitivinicultores, patriarca de um ramo de uma extensa família, constituído actualmente pela mãe Isabel Alexandra, e os filhos Rodrigo e Bernardo, propôs-se, no final do Século passado, dinamizar a actividade ancestral pela qual se sente identificado e pela qual nutre uma forte paixão.

Tomou em conta, a localização e as condições edafoclimáticas da região, que se encontra situada a oeste do continente, na, outrora denominada Estremadura, a norte da Serra de Montejunto,sob predominante influencia marítima, actualmente integrada na área de Denominação de Origem Controlada de Óbidos, apostou em renovar, redimensionar e reestruturar a exploração, replantando vinhas já existentes, que se encontravam envelhecidas e desajustadas da nova realidade e adquirindo outras parcelas confinantes, que se encontravam em situação idêntica ou de pousio.

Nesta conjuntura optou, por castas brancas, precoces, embora com ciclo vegetativo longo, e compatíveis em termos maturação/acidez, – Chardonnay, Viognier, Sauvignon Blanc e Arinto – de forma a conseguirem-se vinhos, bem equilibrados.

As vinhas implantadas em terrenos argilocálcários são certificadas desde a sua plantação e objecto de um rigoroso controlo fitossanitário durante toda a actividade, sendo as vindimas realizadas em tempo e condições climatéricas ideais, oferecendo a envolvente necessária para a optimização de todo o processo de vinificação.

De todo este contexto, resultou que, em 2013, se conseguisse obter um vinho – Foral d’Óbidos–proveniente das castas Chardonnay e Viognier, com carácter bem vincado e consensual, de cor citrina, denotando as castas que lhe deram origem.

 

Óbidos, por exemplo, terá sido tomada aos Mouros em 1148, e recebido a primeira carta de foral em 1195, sob o reinado de D. Sancho I.


Castelo de Óbidos

Óbidos fez parte do dote de inúmeras rainhas de Portugal,designadamente Urraca de Castela (esposa de D. Afonso II), Rainha Santa Isabel (esposa de D. Dinis) e Filipa de Lencastre (esposa de D. João I).

Nesta conjuntura, não existiam condições para um crescimento demográfico, sendo um dado adquirido a escassez de população na Estremadura nessa época.

A progressão da reconquista, a necessidade de povoamento da região, cuja cobertura vegetal ocupava superfícies muito vastas, levou os nossos primeiros monarcas a empreender um esforço nesse sentido e cedendo extensas parcelas de território a ordens eclesiásticas, a senhores nobres e a colonos portugueses e estrangeiros que por sua vez tratavam de proceder ao arroteamento dessas terras.

Estas cedências ou doações eram muitas vezes “firmadas” por “Cartas de Doação”, também chamadas “Cartas de Firmidão”,prática esta que se manteve mesmo após a consolidação da reconquista.

Ora, a nossa empresa – “Quinta da Firmidão” – possui algumas parcelas correspondente à maior área de exploração cuja denominação cadastral é “Formigão”, sem que haja registo ou conhecimento da existência nelas, de insectos desses com qualquer tamanho notável. Assim, julga-se que aquelas terras foram, ao tempo, objecto de uma transacção no âmbito das que atrás se descreve, outorgada por uma “Carta de Firmidão”, o que na gíria popular, ao referirem-se a elas denominavam-nas  como “as da Firmidão”. Com o decorrer dos tempos, foi sofrendo alterações na terminologia das gentes, para “Formigão”.

Nestes termos, e pretendendo repor na Quinta o nome que se acredita ser o original, esta foi fundada e intitulada,em termos administrativos, no ano da graça de dois mil e doze, com o nome de, Quinta da Firmidão.